4. ECONOMIA 4.9.13

O APAGO E O PIB

Os blecautes como o da semana passada so evidncias de que a retomada do crescimento continua limitada pela falta de investimentos.
MARCELO SAKATE E ANA LUIZA DALTRO

     A economia brasileira cresceu entre abril e junho no seu ritmo mais intenso desde o incio de 2010. O avano de 1,5% em relao ao primeiro trimestre, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE), superou as expectativas de especialistas. No acumulado do primeiro semestre, o avano foi de 2,6%. Sustentada pela safra recorde, a agropecuria cresceu 3,9% no trimestre. A indstria e os investimentos tambm deram sinais de melhora. As boas notcias, no entanto, mostram um retrato que possivelmente tenha sido passageiro. Indicadores mais recentes apontam para uma reduo no ritmo da atividade. A persistncia da inflao acima de 6% ao ano causa estragos que se fazem sentir. Os consumidores esto mais cautelosos com seus gastos, enquanto os empresrios adiam planos de investimentos por causa das incertezas causadas pelos vaivns na poltica econmica. O Banco Central, na semana passada, elevou a taxa bsica de juros, a Selic, de 8,5% para 9% ao ano com o objetivo de arrefecer a demanda e, assim, a presso inflacionria. A recente valorizao de 20% do dlar complicou ainda mais o cenrio. 
     A sada para romper o crculo vicioso do baixo crescimento e da inflao elevada passa necessariamente pela ampliao da capacidade produtiva da economia, aumentando o total investido em infraestrutura e tambm na expanso das empresas. Nas comparaes internacionais, so poucos os pases cujas taxas de investimento em relao ao PIB so to baixas como as do Brasil. No por acaso, economias vizinhas como a do Chile e a do Peru avanam a um ritmo mais acelerado do que o Brasil, sustentadas por investimentos que oscilam em torno de 25% do PIB. Os dados do IBGE mostram que, apesar do bem-vindo avano dos investimentos pelo segundo trimestre seguido, a taxa brasileira no passa de 19% do PIB. A China investe, proporcionalmente, mais que o dobro do porcentual brasileiro. 
     Os sintomas do cenrio de baixo investimento so evidentes nas filas de caminhes nos portos, na qualidade ruim da telefonia, nos congestionamentos das grandes metrpoles ou nos recorrentes blecautes. O apago que deixou o Nordeste sem luz na tarde da ltima quarta-feira no pode ser explicado apenas como um evento isolado causado por uma fatalidade  o governo rapidamente divulgou a verso de que queimadas teriam causado o desligamento de duas linhas de transmisso no Piau, gerando o efeito cascata que deixou os nove estados da regio sem luz por duas horas e meia. O apago da semana passada foi o dcimo de grandes propores no governo da presidente Dilma Rousseff. No plano das aes locais, uma medida preventiva, como a retirada da vegetao que fica sob as linhas de transmisso, reduziria o risco proporcionado pelas queimadas. Trata-se de uma tarefa a cargo das empresas, mas cuja fiscalizao cabe  agncia reguladora, a Aneel. No campo do planejamento, a responsabilidade cabe integralmente ao governo, e o apago  exemplar para demonstrar as falhas da gesto. 
     A pior seca em meio sculo no Nordeste reduziu a capacidade de produo hidreltrica da regio, cujos reservatrios de gua esto com o menor nvel em uma dcada. A consequncia  que os estados nordestinos so obrigados a importar de outras regies do pas 25% da energia que consomem, o que significa que a operao no tem folga para eventos como o desligamento das linhas de transmisso do Piau. Quando a carga de energia demandada supera a oferta, o sistema inteiro cai por precauo.  o apago. "Os recentes blecautes so causados por falhas de equipamentos e problemas na coordenao da proteo do sistema", diz Mrio Veiga, presidente da consultoria especializada PSR. " preciso muito planejamento para que o desligamento de um equipamento no cause um efeito domin que afete todo o sistema." 
     A situao no setor eltrico poderia estar melhor se no fossem os atrasos  nas obras de expanso da gerao e de transmisso de energia. Dois teros das obras previstas para a ampliao da transmisso, num total de 26.000 quilmetros em novas linhas, esto fora do prazo previsto, com atraso mdio de um ano. " medida que o consumo de energia no pas aumenta, so necessrias novas linhas. Quando o cronograma atrasa, o sistema como um todo fica fragilizado, o que diminui a sua contabilidade", diz Djalma Falco, professor de Engenharia Eltrica da Coppe-UFRJ. H casos escandalosos. Faz mais de um ano que um parque elico no sul da Bahia est concludo, mas no pode entregar energia para ao sistema nacional porque a rede de transmisso no ficou pronta. 
     So sintomas reveladores da distncia que separa a economia brasileira do crescimento duradouro. Um diagnstico preciso sobre a encruzilhada  frente do pas partiu do empresrio Jorge Gerdau, presidente da Cmara de Polticas de Gesto, Desempenho e Competitividade do governo. "No creio que sairemos desse patamar de crescimento de 2%", disse na quinta-feira, durante palestra em So Paulo. Segundo o empresrio, estudos do Banco Mundial indicam que pases que investem menos de 20% do PIB no crescem mais do que 2,5% ao ano. Para Gerdau, so duas as causas principais do crescimento fraco: o baixo investimento e a falta de governana na esfera pblica. "Se houver investimento em governana, o Brasil pode crescer a taxas de 6% a 7%", afirmou. Que seus colegas no governo ouam o recado. 


